
Durante anos me perguntei porque não tinha um pai, mas não uma presença física, apesar de isso importar, mas a presença afetiva, o companheirismo, as aventuras e histórias que um dia contaria à meus filhos. Fui abençoado por uma mãe incomum, daquelas que todos os seus amigos sonham em ter, aquela mãe que por si é suficiente pra todas as ocasiões que a vida nos impõe, e por essa dádiva, agradeço todos os dias. Mas sentia algo incompleto, sentia que tinha algo errado quando ia numa festa do colégio e via todos os amigos com seus pais e eu com minha super mãe ou até mesmo quando no dia dos pais eu dava o presente ao namorado da minha tia, era estranho, era diferente, era irreal... O tempo passou e essa ausência tornou-se algo muito mais latente em minha vida, as privações aumentavam e a pergunta longe de ser respondida. Como consolo a vida me deu um grande presente: o dom da música. Dom esse que você, meu pai, nunca me apoiou, nunca foi me vê tocar, mesmo vindo de uma família de artista, inclusive você era uma artísta, afinal jogar futebol é uma arte, e com tanta arte vivíamos no memos universo, porém muito distante um do outro. Dentro desse universo, do meu universo artístico, a vida passa a ter uma conotação mais harmoniosa, onde pequenas coisas são de grande valia para o preenchimento de grandes vazios. Quando pegava minha Requinta, primeiro instrumento que aprendi a tocar, colocava na ponta dos dedos toda emoção retida em meu coração e meu diafragma tornava-se um enorme compressor capaz de colocar pra fora todos os anseios retidos por uma pergunta,até então,sem resposta. O tempo passou, e esse universo carregado de magia e mudança tournou-se minha fonte de esperança,de energia positiva. Foi nesse universo que cresci, sobrevivi e aprendi que ausências são inerentes e que os erros alheios nunca podem servir de referência para justificarmos o que fazemos para e de nossas vidas... Sabe, meu pai, um dia parei de sonhar, parei de acreditar que num coração pudesse, de verdade, existir sentimentos bons, afinal como poderia uma criança agora um adulto ser esquecido durante uma vida e só, somento só, por conveniência ser relembrado. Será que o indesejado causa repulsa? E por que os relacionamentos não duradouros refletem diretamente nos filhos? Bom, hoje em dia isso não me importa, afinal depois de 30 anos tentando amar alguem que nunca esboçou nenhuma demonstração ativa de amor, que nunca externou uma reação de busca do tempo perdido essas perguntas não merecem respotas. Durante anos nutri uma raiva, um rancor, nutri sentimentos mesquinhos que me faziam mal e mesmo assim fazia questão de alimentar isso... Ai vem um grande golpe do destino e você, meu pai, vai embora, desencarna. Quando isso aconteceu a 2 anos atrás, não pensava que ia me importar tanto, afinal nunca tive um pai mesmo, porém, ao contrário do que pensei, percebi que tudo o que nutrira era uma forma única de mostrar o quanto era igual a você, pelo menos no orgulho, e que o sonho de um dia poder ter o que nunca tive esvaiu-se e com ele também foi embora a chance de, mesmo de uma forma lúdica, poder concertar pro futuro o que no passado nao teve jeito. Bom meu pai, resolvi escrever essa carta pra te perdoar pelas suas faltas e pra te pedir desculpas pelos meus erros...
Termino apenas dizendo que a falta que durante toda a vida senti é confortada pelo desejo de evolução. Sigo evoluindo, volte liberto.
Lua sempre!!!

2 comentários:
Chuuuuu, que bom entrar aqui e fazer essa leitura depois de ver por tanto tempo um coração tão alimentado pela dor, vc sabe o quanto fico feliz de ver vc perdoar e enxergar tudo isso. E com certeza sua mãe é uma super mãe, que mora no meu coração, bjs
Eu te entendo eu tbm nunca tive um, as vezez eu me pergunto,pq eu paguei o pato da separação, mas isso e o tipo da coisa, que eu tenho que tentar entender e superar,acho que isso pra mim não e o fim do mundo,eu tbm perdôo,ele por estar longe de mim *-* e eu te amo mto! ♥
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